quinta-feira, 23 de dezembro de 2010


Feliz Natal a você do outro lado, ao mundo que precisa ainda tanto dessa alegria, desse amor que tanto buscamos em todos os lares e corações.

"... E Me Pôs Nos Lábios Um Novo Cântico..." (Salmo 40;3)

Ainda que o amor não bastasse,
Ainda que os sonhos tenham escapado,
Sem isto aqui, eu nada seria.
Nada haveria escrito,
Nada haveria sonhado,
Ou amado,
Ou sentido.
Que eu pedi aos céus,
Que eu cantei aos anjos,
Que eu chorei a Deus,
Sem isto aqui, nada haveria adiantado.
Mesmo tendo sangrado,
Mesmo não tendo te encontrado,
Mesmo não havendo luz,
Eu continuei escrevendo...
Um cântico novo a cada dia;
Um sonho novo a cada esquina,
Um verso, uma estrofe,
A cada amor.
Eu usei roupas rasgadas,
Eu venci os meus caprichos,
Eu abracei este contentamento,
Esta simplicidade,
Este estar feliz,
Mesmo as estampas, apenas.

Ainda que os dias não tivessem esperado,
Ainda que você não houvesse aparecido,
Sem isto aqui, eu não haveria andado,
Nada haveria acontecido,
Nada haveria aprendido,
Ou escrito,
Ou vivido.
Mesmo tendo amado dúvidas,
Mesmo tendo amado erros,
Mesmo tendo amado você,
Eu continuei rimando as palavras,
Eu continuei a encontrar
Um sentido lírico.
Se eu chorei,
Se eu desatei infâmias,
Se eu esqueci como voltar,
Se eu não sonhei o que tinha que sonhar,
Sem isto aqui, eu não haveria continuado;
Foram luzes, foram músicas que nasceram;
Foram sorrisos,
Foi um calor no corpo,
Foi um piscar de olhos;
Foi um amor que escrevi,
Em todos os capítulos
Até aqui.

Escute: Amen - Jewel

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

14 de Dezembro. Voltando a fita em dois anos, eu vivi a oportunidade de conhecer em carne e osso, o que antes só tinha em celulóide e ondas sonoras.Inspiração, estímulo de superação, conselheira improvisada, mecenas da arte pop, heroína, símbolo e ícone. God save the queen!

Revés

Do sol, eu sou as nuvens.
Da música, eu sou o silêncio.
Do quarto, eu sou o vazio.
Do livro, o branco das folhas.
Das flores, eu sou o espinho.
Do segredo, eu sou as palavras.
Da vida, eu sou um desenho.

Das estrelas, eu sou a distância.
Dos poemas, eu sou a desordem.
Do amanhã, eu sou o sorriso.
De hoje, o despreparo.
Da moeda, eu sou o outro lado.
Do espelho, eu sou a criação.
Da vida, eu sou o papel.

Da tristeza, eu sou a lembrança.
Da alegria, eu sou a busca.
Da cama, eu sou a insônia.
Dos sonhos, eu sou você.
Da verdade, eu sou as entrelinhas.
De uma oração, o suor entre os dedos.
Deste lado, eu sou um vento.
Da vida, eu sou um palco.

Do esquecimento, eu sou a manhã.
Das passagens, eu sou o cego.
Do mar, eu sou o continente.
Da festa, o retorno pra casa.
Da costa, eu sou a praia.
Do vinho, eu sou a água.
Do amor, eu sou a pergunta.
Da vida, eu sou um caminho.

Escute: Illuminated - Hurts

sábado, 11 de dezembro de 2010

Cinzas. Dias cinzas. Como se cada grão ruim pesasse propositalmente três vezes mais. Dias em que um filme triste tem fundamento. Dias em que a falta do abraço parece insuportável, mesmo. Você faz falta, quem quer que seja você. Adormeço, espero poder sonhar com as cores pros meus dias...

Sensibilidade

O que eu poderia fazer para sentir menos,
Se o sopro do amargo ainda me derruba.
O que eu poderia falar para você me escutar,
Se durmo sonhando com metáforas.
O que eu poderia fazer para não chorar,
Se cada palavra sua cobre meu sorriso.
O que eu poderia fazer para ser melhor,
Se meus passos são, para você, perda de tempo.
O que eu faria para ser amado,
Se esta canção foi interrompida.
O que eu daria por silêncio,
Se seu discurso explode nos meus ouvidos.
O que eu cantaria para ter esperança,
Se minhas letras foram apagadas.
O que eu teria de ser,
Se o personagem não agrada ao público.
O que eu precisaria sonhar para mudar,
Se você permanece com meu retrato antigo na cabeça.
O que eu faria para crescer como você,
Se o meu relógio não tem a mesma velocidade.
O que eu poderia tentar para você olhar para mim,
Se o que faço você não percebe.
O que minha vida poderia mudar,
Se o espaço vazio fosse preenchido.
O que meu percurso poderia mudar,
Se o vento soprasse de outro lugar.
O que eu poderia fazer para você pedir meu amor,
Se você não o quer.
O que eu poderia fazer para doer menos,
Se você não deixa cicatrizar.
O que eu poderia fazer para sentir menos,
Se o temporal demora passar.

Escute: Love Tried to Welcome Me - Madonna

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Anúncio

"Moreno, vivo e normal."
Nos classificados populares,
Em letras miúdas e inclinadas.
Sem muito estardalhaço.
Sem muito espaço.
Apertado entre tantos outros,
Espremido em tantas procuras.

"Moreno, estatura mediana,
Sem vícios, sem danos,
Sem complementos,
Sem muitas definições.
Aprecia artes,
Aprecia a vida comum.
Procura viver.
Procura estar e ser normal.
Deseja alguém que esteja aí,
Sem necessidades,
Sem ilusões,
Vivendo também.
Este alguém tem que viver perto.
Não é necessário enviar fotos,
Não é necessário enviar histórias,
Apenas uma resposta simples,
Com um enredo que inspire
A não anunciar mais."
"P.S. Enviar resposta à caixa postal deste jornal."

Este anúncio desapareceu no dia seguinte.
Uma resposta deve ter-lhe chegado.
Passaram-se semanas...
Passaram desastres, necessidades,
Algumas perdas, até orações.
E um outro texto chama atenção:
"Loira, linda e vaga.
Gosta de sorrir, de gastar tempo.
Fala pouco e atende a chamados.
Aceito troca, recebo sinais vitais.
Negocio a preço justo.
Ass. Moreno, vivo e normal."

Escute: I´m Your Villain - Franz Ferdinand

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Little Brazilian Boys


Meninos.
Meninos nacionais.
Meninos made in favela,
Produtos de venda interna.
Meninos de AR-15 na mão.
Meninos, no rosto apavorado.
Meninos nos cruzamentos.
Meninos do carnaval.
Meninos do futebol,
O sonho brasileiro.
Meninos jogam bolas de gude.
Meninos empinam pipas,
E, meninos sacam canivetes.
Meninos do descaso.
Meninos do esquecimento.
Meninos de Copacabana.
Meninos de Itabira.
Meninos de Iracema.
Meninos de sandálias havaianas.
Meninos batedores de carteira.
Meninos da praia.
Meninos das ruas.
Meninos das praças.
Meninos sentem fome.
Meninos comem lixo.
Meninos cheiram cola.
Meninos querem coca-cola.
Meninos dão a vida.
Meninos dão o corpo.
Meninos sentem medo.
Meninos metem medo.
Meninos do noticiário.
Meninos made in Febem.
Meninos nossos.
Meninos azuis e anis.
Meninos que grafitam brasis.
Meninos de Brasília.
Meninos do Rio.
Meninos na garoa de São Paulo.
Meninos no mar a esperar.
Meninos nas ruas a brincar.
Meninos que não escrevem seus futuros.
Apenas, meninos.

Escute: Waters of March - Peter Gabriel e Marisa Monte
Fotografia: Eduardo Dias Gontijo

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Pas-de-Deux

Dançamos um conto de amor.
Uma história de risos e lágrimas.
Um caso de dor e cotovelo.
Somos lamentos e apelos.
Juntos, formamos letra e música.
Cantamos duetos nas praças.
Eu acentuo a vogal, você une a consoante.
Fundimos um dígrafo.
Fizemos pactos, assinamos acordos.
Somos confete e serpentina.
Presos num cárcere conjugado.
Já ajustamos nossos mapas astrais,
De forma que vivemos
Um o outro.
Somos o nosso público.
Dividimos as estrelas.
Escrevemos nossas homenagens,
Nossas dedicatórias, nossos diários.
E eternizamos tudo que falamos
Numa só frase engasgada.
Gravamos numa fita, qualquer canção
Que nos descreva, que nos faça amar mais.
Pensamos cada dia mais no outro.
Pertencemos cada vez mais à vida do outro.
Não sei nem caminhar com meus próprios pés.
Não sei nem respirar outro ar,
Sem o teu a me contornar.
Não te ensinei a falar,
Para só entender minha linguagem.
Não disse onde era a porta,
Para você nunca procurar a saída.
Sobrevivemos de uma idéia antiga,
Num livro que dedicamos ao mundo lá fora;
Tivemos que renunciar ao resto.
Não deixamos pistas.
Não confessamos nosso segredo.
Não falamos nada,
Calamos para o mundo nos esquecer,
E continuarmos dançando,
Até um decidir parar a música.

Escute: Monday Morning - Melanie Fiona

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

É estranho como a perda consagra santos. É estranho como todas as boas lembranças anulam as más no fim. Sempre escutamos que devemos viver o hoje, amar mais, fazer o que desejamos fazer, pois o futuro é incerto e podemos não ter as mesmas oportunidades novamente. O número sete é o número da perfeição em muitas culturas, a semana tem sete dias, Deus fez o mundo em sete dias, de sete em sete anos acontece o retorno de Saturno, quando finalisamos e iniciamos ciclos. A sete anos eu perdi um anjo, por sete anos, meio que vivi seu luto. Mas esse anjo está no esplendor agora, já posso começar a caminhar sem o som de suas asas batendo e me permitir a devoção a outros seres de luz. Eu sei que onde estiver, entenderá e abrirá aquele sorriso que tanto me iluminava, ao me ver recomeçar. Fim. Início.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Passagens Elementais

Doentis.
Fragmentadas e inelegíveis.
Loucas e intensas.
São apenas passagens.

Um período no tempo, um capítulo.
Uma página, um parágrafo,
Ou apenas, uma ídéia não escrita.
São apenas passagens.

Estereótipos, manias.
Detalhes, pontos qualquer.
Relações e tratos,
Materiais, elementais,
Descartáveis.
São apenas passagens.

Momentâneas, sinceras.
Desajeitadas, ou mesmo, frívolas,
Corriqueiras.
O segmento, o tapete aos nossos pés.
O portal, a idade.
As situações e paixões.
São apenas passagens.

O porre, anoite em claro.
Aquele corpo sobre o nosso.
O beijo azedo, o beijo doce.
O rosto camuflado, o corpo inflado.
(Não se iluda!)
São também passagens.

Filhos e projetos.
Óleos e viços.
Mentiras e trilhas sonoras.
Emendas e sonetos.
Ícones e mitos.
Uns e outros por aí.
São apenas passagens.

Escute: This is your life - Banderas
Ao Marco, por lembrar ao autor que vale à pena recomeçar.
"Não há nada de novo sob o sol"*.Quando pensei em retomar tudo isso, imaginei que precisava criar um cenário novo, as palavras precisariam ser distribuidas em novas cores, em novos tons e significados. Como seria árduo o recomeço dessa forma! Mas aqui estou, aberto a esses novos versos e à inspiração dos novos capítulos, mais uma vez!

*Eclesiastes 1:9-14

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ave Maria


Ave-Maria perto de mim;
Que me segura as mãos,
Que me diz como rezar,
Que toca os meus sinos.
Ave-Maria dos meus pedidos;
Que me escuta no silêncio,
Que me explica o carma,
Que me traduz os caminhos.
Ave-Maria da minha alegria;
Santa dos meus sorrisos;
Nossa Senhora dos meus amores;
Ave, mãe protetora dos meus sonhos.
Ave-Maria do meu sono;
Onde devoto minhas noites,
Onde alcanço minhas preces,
Onde me mostra um dia melhor.
Ave-Maria de vida;
Ave-Maria de mim;
Que me ensina a dar passos,
Que me diz onde alimentar minha paixão,
Onde encontrar esta vida,
Onde há um espaço para eu rezar também.
Amém.

Escute: Act of Contriction - Madonna
Imagem: Christopher Ciccone, Like a Prayer Single Cover

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O Eclipse, o Naufrágio e a Amnésia

I.
Caminhava só.
Minha vida vazia era silêncio.
O espaço que sobrava na casa,
Eram cortinas rasgadas.
Um coração em pedaços.
Um limite no desespero que já vazou.
A cartomante falou de você:
Uma celebração, uma comoção,
Eu encontraria você na multidão.
Minhas linhas caminhavam o percurso,
Que as cartas haviam escrito.
De repente, fui encoberto de amor.
Um mar de perspectivas,
De tantas declarações.
Mas, a essa altura, eu já nem mais sabia meu endereço.
Já era tarde.
Você me tomou o espírito.
Você apareceu e eu não sabia o que fazer.
Já era tarde.
Na noite deste poema, eu passei a procurar um cais.
Todas as palavras eu separei;
Todo o comportamento eu estudei;
Todo passo eu ensaiei.
Já era tarde.
A febre só havia começado.


II.
Minha nau, sem direção estava,
Neste mar, agora, de incertezas,
Numa noite desnorteada de mim.
Meu livro já estava borrado.
Conheci uma demência,
Conheci a doença, o desvio,
O teatro dos teus sonhos.
Eu era fantoche manipulado,
Destrado, conduzido.
Vaguei pela corrente que você criou.
Fui jogado nos paredões da tua costa,
Até chegar na praia e morrer...
Fui ao purgatório entender meu caminho,
Compreender tua presença.
Me deram ópio, me tiraram as lembranças.
Renasci, como um ser de luz,
Que corre pela Via-Láctea,
Sem saber a tua existência
E o que eu viria fazer.
O que teria de te contar.
O que era para te ensinar.
Até o dia que te encontrei,
Novamente.


III.
Esqueci teu nome.
Você é um rosto desconhecido,
Que me ama, mas fujo de você.
Não falo com estranhos.
Não me entrego a estranhos.
Não amo estranhos.
E você diz:
"Eu te conheço de algum lugar..."
Digo ser engano.
Não acredito, não dou provas.
Não procuro sinais.
Na verdade, fui programado para fazer isso.
Meu amor foi deletado naquela praia
E eu queria te dizer a minha história,
Talvez assim, você entenderia.
Deixa eu te esquecer agora,
Eu preciso de um momento para desistir.
Pois, nasci com as cicatrizes da outra vida,
Com marcas que eu nem lembro mais,
Onde e quando foram tatuadas.
Deixa eu caminhar sem você.
Dê seus passos para longe de mim;
Na verdade, não nos conhecemos,
Estou a anos-luz de você
E acho que você deveria fazer o mesmo.
Não apague o sol.
Não nebule o dia.
Não faça chover;
Pois, você não me afeta mais.
Eu já havia dito:
Nem sei mais teu nome.

Escute: Back to Black - Amy Winehouse

terça-feira, 27 de maio de 2008

Registro & Perspectiva

Estaria ouvindo as mesmas músicas,
Se não decidisse desligar o rádio.
Continuaria a mesma censura,
Se houvesse se calado.
Finalizaria melhor os detalhes,
Se assim eu o quisesse.
Finalizaria melhor a melodia,
Mas gosto do som como está.
Sentiria mais você aqui,
Ainda que teu cheiro já ocupe esse espaço.
Cuidaria melhor das palavras,
E enviaria cada uma delas no Natal.
Escreveria uma biblia de perspectivas,
Selando nosso destino de doces pecados.
Sentiria um pouco mais de tudo
E ainda prefiro não prestar atenção.
Poderia ter mudado o rumo da vida
E alterado a forma como tudo funciona,
Mas preferi dar voz ao inesperado
E refletir junto ao público,
Diante do texto final.

Escute: Words - Madonna

Discos Voadores


Uns caras tiveram um sonho,
O mesmo sonho.
Criaram uma utopia
De um submundo diferente.
Desenharam o protótipo.
Finalizaram os cálculos.
Se camuflaram na areia cósmica.
Eram minotauros de um olimpo alienígena.

Os caras levitaram no sono.
Penetraram meios abissais.
Atravessaram encarnações.
Se teleportaram para outras realidades.
Viram seus nascimentos e funerais;
Seus inícios e fins...
Sentiram um frio no estômago.

Os mesmos caras brincavam nas nuvens,
Com seus uniformes teletubbies.
Eram arautos, sentinelas
Da sua nova galáxia.
Correram em discos voadores,
Saíram de órbita.

Os caras, aí então, se comunicaram com a Terra.
Pediram suprimentos de vida,
Pediram seu resgate.
Imploraram a real realidade.
Queriam voltar a Ipanema,
A um ponto qualquer no planeta.
Queriam sentir o calor do sol
E rever seus amores.

Os caras tiveram uma epifania.
Uma revelação.
Uma premonição.
Acordaram de um delírio,
Que recuaram por não saber como lidar;
Como manusear sua letargia.
Então, decidiram não alucinar mais.
Cansaram de ser lunáticos.
Futuristas antipáticos.

Esses caras caíram em si
E decidiram continuar assim.

Escute: Space Oddity - David Bowie

Millenium

Esta é a odisséia humana.
Separada entre céu e inferno,
Meteoros e bênçãos.
Antagônica.
Anos profanos, cínicos.
Indecisos, por vezes, céticos.
Dubiamente aproveitados.
Uma época, uma era,
Uns séculos estranhos.
Seitas, crenças,
Doenças apocalípticas.
Conquistas, buscas,
Procuras eternas.
Filhos suicidas, filhos assassinos.
Filhos ilustres, filhos missionários.
Filhos...
O uso de um tal de livre arbítrio,
Uma tal de lei dos homens:
Insana, confusa,
Apenas textual.
Um filho usou morfina na veia,
Para fechar a carapuça.
O outro descobriu um antídoto,
Para sarar o músculo do peito.
Outros dois selaram uma jura
E dois mais, deram-se as mãos.
Uma filha caiu apedrejada
E uma outra, apontava o dedo sujo.
Um homem deformava a história
E outro engrandecia a raça.
Uma mulher morria ao dar à luz a um herói
E outra, prostituía seus capítulos.
Conspirações, exércitos foram montados,
Para defender pátrias e idéias.
Criaram o Armageddon e a bomba de Hiroshima,
Ampliaram até os desertos.
E os filhos ainda tremem diante do canhão...
Uma realidade dissonante.
Inventaram a globalização:
Tudo está (somente!) na idéia de todos;
Escreveram livros de auto-ajuda,
Para reformularem o paraíso;
Releram as palavras sagradas,
Talvez tenha fugido alguma coisa;
Lucraram com a fé dos filhos,
Criando um superstar para guiá-los;
Recorreram a gurus,
Para entender a bosta que deixaram acontecer.

Escute: London Calling - The Clash

quinta-feira, 1 de maio de 2008

O Estado das Coisas

Agora percebi o peso das coisas,
O silêncio da casa,
O barulho dos estranhos,
Estranhos que convivi por anos.
Quero um céu para as minhas estrelas;
Meus heróis estão sem sala,
Ainda não posso recebê-los.
Minhas idéias estão voando ao vento,
Preciso anotar cada formato de versos.
Preciso de um catálogo para os meus sonhos.
Está tudo empoeirado.
Está tudo despedaçado.
Mensagens são lidas,
Trajetos são espionados,
Quando a verdade está no palco,
Sozinha.
Percebi a relevância das lágrimas
E sua inutilidade.
Quero um armário para elas,
Para expor cegueiras e clarezas
Juntas, como num altar.
Minhas fotos de viagens.
Minhas fotos de familia.
Preciso de caixas.
Guardarei meus primeiros capítulos.
Preciso de papel
Para cobrir meu tesouro.
Está tudo descuidado.
Percebi a função do tempo,
O silêncio dos outros,
O barulho que eu fazia.
Mas percebi, enfim
O estado das coisas,
Cada palavra falada ou silenciada.
A porta já havia fechado,
Cujas chaves eu nunca tive.

Escute: Judas - Depeche Mode

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Urgência Traduzida

Há um incêndio para acontecer
A cada dia desta história.
Há urgência nas palavras do personagem.
Frases curtas, sentenças menores.
Há suor em suas mãos,
Em suas pernas e rosto.
Há a catarse interrompida;
Há uma fúria silenciada
Pela decisão da sobrevivência.
Me interprete nas entrelinhas,
Me absorva nos silêncios,
Me deguste nas pausas.
Há uma certa beleza nessa urgência.
A expressão é melhor captada nela.
O sentido de tudo que não é percebido.
Há poesia nesse estado de emergência,
Músicas e orações febris.
Há a ironia de se viver feliz...
Te refiz pela bula desgastada,
Te criei uma capa de velhos jornais,
Te traduzi pela urgência do poema.
Há significados em fragmentos,
Há explicações na pressa.
Me resolva em sua linha de tempo,
Me diga a velocidade,
Me mostre a descoberta.

Escute: Plastic - Portishead

terça-feira, 1 de janeiro de 2008


Recomeçar...
Tirar a roupa usada e suja e vestir um novo eu.
Um eu melhor, um eu que enxerga além, um eu envelhecido, mas um eu com fé.
Um eu amando e que se deixa amar.
Um eu buscando e realizando.
Um eu que renasceu de cada queda e lágrima e de cada alivio e sorriso.
Quero um eu espontâneo em suas vitórias e calculado em suas metas.
Um eu sábio nas derrotas e condescendente nas falhas dele e do mundo.
Quero um eu que saiba dizer palavras doces e exponha seu afeto.
Um eu que doe mais, que se entregue mais.
Quero um eu que diga "eu te amo", a cada dia que amanheça.
Quero um eu que se deixa tocar seus sonhos e que toque as realizações de alguém.
Quero um eu maior em sonhar.
Quero verbos novos, versos novos.
Um ano novo.
Um espirito novo.
Palavras e discursos novos.
Movimentos e gestos que, renovados, apresentam novas cenas e esperas.
Esperanças...
Um eu que as toma para si.
Promessa...
De alimentar tais esperanças desse eu que nasceu.